fevereiro 04, 2004

Post umbiguista para desanuviar a atmosfera

Quando já estava mesmo farto disto, lá decidi ir tomar um café com flã. Instalei-me num banquinho de jardim: o jardim estava óptimo, o flã assim-assim, o café uma peçonha.

Pus-me a pensar na conversa do almoço: está bem que quando tens uma estudante a bater-te o couro, tu resistes quase sem dar por ela. Mas e se és tu que não resistes a uma estudante que nem sequer te passa cartão? Nem sequer tens a muralha da ética ofendida para te defender, e muito menos a vantagem do estatuto para te ajudar na tua empresa de sedução. En un mot, estás fodido, Cédric. O que te vale é a boa que andas a papar, sempre desvia a tua atenção de pensamentos pecaminosos. (não conto o que respondeu o Cédric)

Nisto passa pela alameda do jardim uma confirmação empírica da teoria do Cédric: uma miúda assim tão bem feita que só mesmo uma lésbica a poderia descrever com a sensibilidade apropriada. Eu limitar-me-ei a salientar aquele peito pesado e maternal que teimava em manter uma aspiração ascensional apesar do pull-over que o moldava. Mas lá está: havia algo de pueril naquelas feições, um tudo-nada de cheiro a leite no oval da cara, que um gajo (acho que o qualificativo me assenta bem) quando está a engatar numa discoteca nem liga, mas quando está de pé numa sala de aula sente logo como um poderoso dissuasor do desejo. E descansei: acho que afinal vou conseguir.

Recebo então a chamada do dia. Acerca dela, quase no comments. Apenas isto: sabem qual é a diferença entre uma tia e uma goiana ao telefone? A tia diz ‘então vá’. A goiana diz ‘então tá’. Tanto mar que nos separa… eu cá prefiro a goiana.

Revigorado pelo então tá, bebo o resto do café de um trago tremelicante e dirijo-me ligeiro e ledo para o escritório. Cruzo-me na rua com a 'miúda assim tão bem feita'. Nem preciso de fingir indiferença: estava mesmo indiferente, eufórico por outros motivos. Mas as nossas trajectórias roçavam-se (tal era inevitável) e a vaga de perfume nada pueril que ela espalhava deixou-me outra vez com dúvidas sobre a minha vocação docente.

Entrei no emprego, passei pelo Cédric, fui à casa de banho, e ao lavar as mãos olhei para o espelho e pude constatar que ‘um dos problemas desta selvajaria – lavar o cabelo dia sim dia não - é que, mesmo que nos repugne muito, não pode ser erradicada por nenhuma lei que não traga infinitamente mais inconvenientes que vantagens. Teremos por isso que a combater sem a ajuda da lei.’ Mea culpa, mea maxima culpa. E agora, se me permitem, estou atrasado para o psiquiatra.

Publicado por Vasco do Ginjal em fevereiro 4, 2004 05:28 PM
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